quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

PUNTA QUERANDÍ: Crônica de uma memória subversiva




Prof. Dr. Antônio Fernando de Araújo Sá
Departamento de História
Universidade Federal de Sergipe

"Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu".
Darcy Ribeiro



Durante as atividades da 8º Conferência Latino-americana e Caribenha de Ciências Sociais, realizada entre os dias 19 e 23 de novembro de 2018, na cidade de Buenos Aires (Argentina), tive a oportunidade de visitar Punta Querandí, um dos enclaves de resistência dos povos indígenas argentinos na atualidade. Convidado pelo professor Eraldo da Silva Ramos Filho, do Departamento de Geografia, da Universidade Federal de Sergipe, essa atividade fazia parte da IV Escuela Internacional de Posgrado y Campesina: “Las resistencias profundas desde abajo: ir más allá del capital para derrotar la razón conservadora”, que contava com a presença de pesquisadores de diversas universidades latino-americanas desde o México, Guatemala, Colômbia, Argentina e Brasil.
Saímos na manhã do sábado, dia 24 de novembro de 2018, com destino à comunidade situada próxima ao delta do rio Tigre, mas o GPS nos levava a outros caminhos distantes da localidade, em virtude da construção de condomínios fechados de casas de alto padrão, bloqueando as estradas de acesso à Punta Querandí.
A luta em torno da posse do território começou com a descoberta do cemitério indígena Garín, em 2004, e, em 2010, foi estabelecido um acampamento de pessoas, que se apresentaram como Movimento em Defesa da Pacha (MDP), composto por indígenas, membros da assembleia do Delta, ambientalistas e vizinhos de Tigre e Escobar, que se organizaram em defesa do patrimônio cultural arqueológico encontrado na província de Buenos Aires (LACOA e GRIECO, 2015).



  Foto: Fernando Sá (2018)

Nossa delegação de pesquisadores de distintas universidades latino-americanas foi saudada por Pablo Badano, que nos transportou num pequeno bote entre o canal de Villanueva e Arroio Garín, já que os veículos estão impedidos de circular na região, transformando-se em um cemitério de carros particulares e utilitários. Como membro do Conselho de Comunicação de Punta Querandí, ele nos apresentou um pouco da história da ocupação da região por parte dos índios de distintas regiões da Argentina, como os guaranis do Tigre, Qom de Benavides, Koyas de Escobar, Wichis de San Fernando.
A preocupação memorial da trajetória indígena na grande Buenos Aires resultou na construção de um Museu Autônomo de Gestão Indígena, segundo nosso anfitrião, o único da região. Essa iniciativa autogestionária surgiu como fruto de embates com arqueólogos Daniel Loponte e Alejandro Acosta, do Instituto Nacional de Assuntos Indígenas (INAI), que, segundo Pablo Badano, não creditaram o devido valor ao material arqueológico ali descoberto quando da construção do condomínio fechado Santa Catalina. Leandro Lacoa e Gaspar Grieco (2015) relatam que a pesquisadora Morita Carrasco, responsável pelo relatório socioantropológico, denunciou que “tanto os cientistas quanto as autoridades estaduais mantiveram um diálogo fraco ou, em alguns casos, inexistente com o movimento social”.

  
Foto: Fernando Sá (2018)

Como a memória tem algo de subversivo, no mais das vezes emergindo de modo inoportuno, que altera a continuidade do estabelecido (SCHMUCLER, 2009: p. 29), estabeleceu-se a continuidade entre a luta ancestral dos povos indígenas e a da geração que enfrentou a ditadura civil-militar argentina (1976-1983), com a lápide memorial em homenagem à presa política socialista Ana María Martinez, sequestrada e assassinada em 04/02/1982, na vila de Maio.
A ênfase nos direitos humanos, em questões relativas às minorias e aos gêneros, bem como na reavaliação dos vários passados nacionais e internacionais, constitui-se numa das diretrizes da cultura crítica da memória, no sentido de “proporcionar um impulso favorável que ajude a escrever a história de um modo novo e, portanto, para garantir um futuro da memória” (HUYSSEN, 2000: p. 34). Para tanto temos que, seguindo as ideias de Walter Benjamin, escrevê-la a partir do ponto de vista dos vencidos, no sentido de “fazer emergir as esperanças não realizadas desse passado, inscrever em nosso presente seu apelo por um futuro diferente” (GAGNEBIN, 1982: p. 67).
Nesse sentido, Punta Querandí é exemplo paradigmático de denúncia da exclusão e injustiça no passado e no presente, em que os confrontos dos povos indígenas contra o capital imobiliário dos condomínios fechados no delta do Tigre são a ponta de lança de um confronto mais amplo em torno dos destinos do planeta, ou Pachamama, na definição da comunidade. De um lado, a lógica capitalista fundamentada na propriedade privada da terra, no processo de mercantilização, lucro e acumulação de riquezas; de outro, a lógica indígena de considerar a terra como sagrada, por conter um cemitério ancestral e onde construíram um templo guarani para curas espirituais; por vezes, derrubado por opositores à permanência da comunidade. Ao centro do acampamento, uma escultura de um yaguareté (panthera onca) com sua pata protegendo Pachamama (mãe terra), pois eles consideram-no animal sagrado e, segundo o xamã da localidade, onde tem yaguareté o guarani também está presente. Por isso, a identidade da comunidade Punta Querandí “não pode existir fora do território”, conforme sugeriu Sebastián Hacher, denunciando “o ameaçado equilíbrio entre terra, natureza e memória”. Em sua sensível reportagem publicada na revista Anfíbia, a qual eu compartilho de suas ideias, o jornalista afirma que os laços invisíveis que unem o espaço sagrado dos povos indígenas não podem ser desfeitos, pois se “os fios são cortados, a catástrofe segue. Para os povos nativos, mas também para o resto de nós”.

 Foto: Fernando Sá (2018)

Longa vida para Punta Querandí!!!

BIBLIOGRAFIA

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Walter Benjamin: Os cacos da história. São Paulo: Brasiliense, 1982 (Coleção Encanto Radical).
HACHER, Sebastián. Identidades y Topadoras: Punto Querandí. In: Revista Anfíbia. Buenos Aires: Universidad Nacional San Martin, 2018. Acessado no dia 9 de dezembro de 2018 no site http://revistaanfibia.com/cronica/punto-querandi/
HUYSSEN. Andreas. Seduzidos pela Memória. Rio de Janeiro: Aeroplano/Universidade Cândido Mendes/Museu de Arte Moderna (RJ), 2000.
LACOA, Leandro e GRIECO, Gaspar. Punta Querandí: De “objetos de estudio” a “historia viviente”. Salta 21: Cultura e atualidade. 13/08/2015. Acessado no dia 9 de dezembro de 2018 no site http://salta21.com/Punta-Querandi-De-objetos-de.html.
MAIA, Maria. Darcy: "Fracassei em tudo o que tentei na vida". Carta Maior: O portal da esquerda. 02/11/2013. Acessado no dia 9 de dezembro de 2018 no site https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Educacao/Darcy-Fracassei-em-tudo-o-que-tentei-na-vida-/13/29421.
SCHMUCLER, Héctor. Memoria, subversión y política. In: DE LA PEZA, María del Carmen (coord.). Memoria(s) y política: Experiencia, poéticas y construciones de nación. Buenos Aires: Prometeo Libros, 2009.

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