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sexta-feira, 24 de julho de 2015

DESORDEM

A luz atravessou o quarto.
A ordem dos livros
quebrada
no número 18,
dente fraturado
em briga adolescente.

Não consigo
pôr nada em ordem.
Kaos de ideias
que, a deriva,
não encontram ecos
na vertigem do dia.

Seus olhos
- piscina na favela -
deixam-me atônito,
encandeado pelo fogo
do desejo.

Jean Cocteau lia o testamento
orfeônico:
como escrever
poema
em linha reta?

Que falta
você faz,
Pessoa!

Afogado
na terceira margem do rio
(São Francisco)
não sei
se o poeta
sobreviverá,
vapor a correr,
as corredeiras da vida.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

BORDADO PÓS-MODERNO


Vivem a computar pontos
Não ligam um ponto a outro

Ponto final

quinta-feira, 21 de março de 2013

CIDADE (SEM) JARDIM


Sonhei partir
De ti
Mas não pude.


Minhas crianças
Me chamavam
Para brincar nas barrancas alvas
Do mar oceano.


Arrastando na praia feito caranguejo,
Não consegui partir
De ti
Ó cidade dos papagaios.


Sonhei partir
De ti
Mas meus livros
Pesavam muito
E não consegui me mover.

Sonhei partir
De ti
E a milhares de milhas daqui
Pensei aportar no paraíso
Às margens do grande rio.
Casa de Horacio Quiroga.
Mas algo me detinha
na cidade dos cajueiros.


Sonhei partir
De ti
Mas desisti
De buscar caminhos
Que me traziam de volta
Atalaia.


Ali,
Penso,
Sempre estive
Com meus livros
Esparramados
Entre traças e beijos.


Restam-me
Poucos sonhos
E a lua cheia e as cabeças de frade
na varanda
Me faz pensar como mudei.


Hoje não me recuso a homenagear
deuses locais.
Não partirei mais
De ti.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

DE SERTÕES


Sou ex-temporâneo
Mas, ao contrário de Nietszche,
Sou contra o alzhaimer do Brasil.

Não posso esquecer.
Mnemosine não me abandone
Nessa hora.

Minha tataravó
Preada a dente de cachorro
Me apareceu
Hoje.

Me chamava
Para conhecer os encantados
Tupinambás do Raso da Catarina.
Não sei se estou preparado,
mas vou.

O sertão é o mundo.
Impenetrável?

Tentei fugir do destino.
No se puede!
Dizia os Q’om del Chaco
Entre massacres.
Tonolec.

Enquanto alguns querem conhecer outros mundos
O sertão de Lampião
me basta.

Encontrei no sertão um prumo.
Um norte?
Ponto firme
Para uma nau sem rumo.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

FERNANDO QUASE SABINO



Para Sérgio Medeiros


Remexi as gavetas da sala vazia
Procurando pingos nos is.
Não encontrei respostas,
apenas docs de contas atrasadas.

Não toco bateria
Perdi a poesia
Da vida
Meu amigo escreve todo dia
Poesia.

Não me cobrem coerência, fui artista na Candangos Decapitados.
Os cocos estão no chão
E só encontro a unha encravada da gramática
No pé da letra.

Pessoa, bravo guerreiro,
Resiste no Real Porão.
Mnemosine do cerrado
a entoar os cânticos dos cânticos.
Lethe não vai te vencer, meu amigo.

A greve parou a vida
Mas trouxe a poesia.
Vento forte me escreveu um postal do Ceará
Atrás do Fernando em busca da Sá-bedoria.

Só quero o que pode dar certo.
Não tenho tempo a perder.
O livro que comprei para Sofia
Era a chave do enigma:
Fernando quase Sabino.

sábado, 2 de junho de 2012

ALUMBRAMENTOS


Para Zé Maria

 Ontem, conversei
com Maria sobre o Zé:
Antes, ZEM.
Hoje, ZEN.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

THE STRIP




Enquanto caçava os níqueis de meu coração despedaçado
Arturo Bandini me fitava
Do outro lado da mesa.

Las Vegas,
City de Memórias de filmes idos
meu pai
Entre um continental – sem filtro – e outro.

O cheiro do carpete mofado do Astec Inn
cassino disputado por velhos em suas últimas apostas
- DE VIDA –
Quase sempre frustradas,
Como as putas de plantão.

O ventilador de teto olhava-me impassível e lento
Entre câmeras de vigilância
Lembrando-me dos quartos do Real Porão
Em Brasa City.

Mar de luzes de freio
Pássaros brotavam de árvores
A caminho do hotel.

A lua entrava na sala e eu conversava com os astros
Em busca de decifrar os passos futuros.
Meu filho me esperava em casa
Prestes a nascer
E eu aqui percorrendo as ilusões do deserto
Colorado River.

Nas encruzilhadas da cidade-cassino,
Pensei domar os instrumentos dos sonhos.
Peter Tosh catarola Depression man no rádio
Enquanto a máscara, que enfeitava o quarto, fitava-me questionadora:
Aonde foram parar os sonhos revolucionários de antanho?

Tudo continuava atrasado, inclusive os sonhos naquela noite
Que também não chegaram.

sábado, 5 de maio de 2012

INFÂNCIA




Para Nahum

casa com criança
a poeira não assenta
Judas
em sábado de aleluia.



quinta-feira, 26 de abril de 2012

PRATO DO DIA

Num restaurante chinês
na mesa três:
o homem lia mails
a mulher assistia novela
a menina sonhava.
Ninguém se olhava.
O prato do dia: família feliz.

sábado, 21 de abril de 2012

MEU PASSADO (RE)VISTO


andando pela W-3
perguntei-me sobre BIBABÔ
não sei se o bandido
ou a loja assaltada.

a avenida em decadência
esquece da pulsação
das passeatas
estudantis (anos 60)
agora só memória (40 anos).
Histórias.

os cabelos quase brancos
doenças chegando
fortes dores de cabeça
de leituras infinitas
do mundo.
Memórias.

diversas viagens
diferentes paisagens
não me deixaram esquecer
do Shopp Chopp,
Trezentas doses.
Saudades.

No Chapéu de Couro
Véio Nilton cuspindo sangue
e fogo
profecias de antanho.
Histórias.

um filme passa
de uma vida convulsionada
agora, certinha:
filhos controlando pais.

outubro dos diabos
o retrato de Diego Rivera
falando
falando
falando
de livros
- totens e tabus -
de uma esquerda cansada de guerra

somente acredito no que vivi
assim
escrevo aquilo que li e viajei:
sonho de vida,
arte da memória.

meu tupy or not tupy
permanece como questão:
ser poeta em Brasília
ou historiador do sertão?

quinta-feira, 22 de março de 2012

1970



meus dedos tilintavam na cerca da escola parque da 508 sul
a caminhada da W3 até a casa da tia na L2 seguia tranqüila
de repente, um poste atravessou na frente
tonto e atordoado, caí com as mãos na cabeça

ao longe, gritos eufóricos ecoavam de todas as quadras
era a final da copa de 70.
o galo cantava e eu não entendia tamanha euforia
bandeiras, carros, buzinas, mulheres
as árvores e a quadra estavam, como nunca, verde e amarela

meus pulsos de cinco anos nada podiam entender
mas mesmo assim pulsavam
forte
meu pai, com o velho continental sem filtro à boca, sorria
tresloucado
minha mãe, comedida, estava preocupada com o nosso retorno
não havia ônibus e a cidade era uma festa

quase quarenta anos depois
essas imagens me assaltam a memória
será que já podemos esquecer os mortos insepultos?
àquela dor de cabeça de 70 volta a me atormentar
e teima em não me deixar dormir...

sexta-feira, 16 de março de 2012

Sonhos de Verão


Viajei para países distantes
Em busca das terras sem males.

No Marandu
Encontrei uma índia guarani de Eldorado.
Linda e jovem me revirou pelo avesso
Como a drummoniana norma
Fizera tempos atrás.

Consultei oráculos
Que me indicaram caminhos equivocados.
Os deuses novamente me abandonaram.

Sonhei com uma mulher
Que nunca vou ter
Com filhos que fiz
E não vou conhecer.

Agora rumo sem rumo
Busco uma vida mais próxima do zen.
Mas como um bom puteador sapeco meu bordão:
Basta de mulheres “zen” noção.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

NÃO HA SAÍDAS?


Entre escombros,
procurei nossa história
no ap do Liberato.
Encontrei,
apenas,
a rede balançando
sozinha.

Itamar cantando Leminsky,
poeta de palavras transeuntes,
enquanto filmes passavam na mente.

Entre as pedras de Imbassaí,
nosso amor
escorria
como champanhe de réveillon,
entornada nas dunas.

O voo do corujão não trouxe meu amigo
niilista
que se tornara mendigo
na Lira Paulistana.

À espera do novo tom,
um músico rasgava a voz
- onde tremulava a cabeça de um cangaceiro –
contra a caretice vigente.

Em meio à crise,
não contei com muitos amigos.
Nas saídas de emergências
- todas falsas –
busquei a saída da cidade.

Cioran me tentava
Sorrindo
Sorrindo
Sorrindo
Não há saídas?

domingo, 1 de maio de 2011

POEMA SEM TÍTULO



Para o Victor Leonardi

Escritos em papéis de seda
ou guardanapos
Meus poemas quase não têm títulos.
Para quê?
A poesia não é a arte de dizer o indizível?

domingo, 24 de abril de 2011

RETRATO AUTOBIOGRÁFICO




FERNANDO SÁ (CANA)
FERNANDO SÁ (CO)
FERNANDO Só (CANA)
ENTRE FERNANDOS
ME ENCONTREI ANTÔNIO.

Em Lisboa,
Entre becos e vielas,
descobri Fernando entre Pessoas.

Em BsB, de fernando em fernando,
O Araújo se resumiu à letra a.

Mas, no recanto da Atalaia,
Entre cajus e papagaios,
Fernando Sá se tornou Tupinambá.