domingo, 20 de fevereiro de 2022

 


MEMÓRIA(S) E POLÍTICA NO CENTENÁRIO DE LEONEL BRIZOLA (1922-2022)


Prof. Dr. Antônio Fernando de Araújo Sá

Departamento de História

Universidade Federal de Sergipe



Escrever sobre o centenário de Leonel Brizola na atual conjuntura é, no mínimo, assumir um ato de memória como ação política, na medida em que trazer a memória política desse líder trabalhista é demonstrar inquietude e incomodidade com o presente (PERNASETTI, 2009: p. 54).

Nosso desejo de convocar essa memória serve de ponto de partida para imaginar o futuro do Brasil, em um momento em que a tradição latina do saeculum emerge como possibilidade de se repensá-lo, em suas múltiplas facetas, como no caso do centenário da Semana de Arte Moderna, do Partido Comunista Brasileiro ou do bicentenário da Independência.

Nascido no dia 21 de janeiro de 1922, no Rio Grande do Sul, Leonel Brizola foi protagonista na história republicana brasileira na segunda metade do século XX e início do século XXI, sendo que, quando de sua morte em 2004, a imagem mais recorrente de sua presença política “foi a de um defensor da legalidade institucional e da democracia”, especialmente pela coragem para enfrentar os militares golpistas que tentaram impedir a posse de João Goulart, em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros. Considerado o último levante gaúcho, a vitoriosa Campanha da Legalidade representou sua assunção como líder da política nacional, demonstrando que ser possível derrotar um movimento militar golpista, a partir de intensa mobilização popular (FERREIRA, 2016: p. 25). Como afirmou Ângela de Castro Gomes (2016: p. 303), “não importa que ele não tenha tido tais posições ao longo de toda sua vida política (...). O fato de Brizola ter pendores autoritários (...) não diminui sua marca e contribuições políticas para o país”.

Os percalços da primeira e dificílima experiência de democracia de massas no Brasil, no período de 1945-1964, podem contribuir para compreender a fragilidade da democracia representativa de corte liberal no país, especialmente após o golpe de 2016 e a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018. Ontem como hoje, as crises políticas nos momentos de disputas eleitorais à presidência da República traziam tensões institucionais, em virtude de os derrotados, nas urnas, questionarem os resultados, apelando para instâncias judiciais e/ou procurando alianças com grupos militares insatisfeitos.

Outro momento emblemático da vida política que teve sua participação evidenciada foi durante a chamada Nova República (1985-2016). Herdeiro do trabalhismo da Era Vargas, Brizola manteve a preocupação com a defesa dos direitos do trabalhador e do nacionalismo, mas incorporou a questão democrática e a busca do socialismo brasileiro, trazendo, ao mesmo tempo, temas como os negros, os índios, as mulheres e os favelados para o centro do debate político. Esse novo trabalhismo “encarnou-se no brizolismo” (GOMES, 2016: p. 307).

Brizola e o Partido Democrático Trabalhista, criado no início dos anos 1980, resistiram, com seu projeto nacional-estatista, às políticas neoliberais de privatização do Estado, ao longo dos anos 1990. Entretanto, sua retórica não mais galvanizava as massas com suas pregações cívicas, como outrora. As derrotas eleitorais, do final da década de 1990, demonstravam que a força e o carisma do líder trabalhista se restringiam as cidadelas carioca e gaúcha (FREIRE, 2016: p. 203).

Sua morte, em 2004, foi reveladora de “que Brizola pode ser pensado como um estranho caso de liderança capaz de resgatar o caráter glorioso das tentativas, frustradas, dos planos abortados, das batalhas perdidas, das histórias por um fio (SENTO-SÉ, 2016: p. 15).

Esse ato de memória como ação política supõe o exercício da liberdade de se oferecer aos outros um diálogo de construção de novos sentidos da leitura do passado e do presente. Portanto, lutar pela memória “seria precisamente interrogar o presente e imaginar outro futuro” (2009: p. 62 e 63). Como bem notou Nelson Werneck Sodré, a democracia está em perigo, com o neoliberalismo. “Ou o Brasil acaba com neoliberalismo ou ele acaba com o Brasil” (SODRÉ, 1998: p. 120).

 

BIBLIOGRAFIA

 

FERREIRA, Jorge. Nacionalismo, democracia e reformas: As ideias políticas de Leonel Brizola (1961-1964). In: FREIRE, Américo e FERREIRA, Jorge. A Razão Indignada: Leonel Brizola em dois tempos (1961-1964 e 1979-2004). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

FREIRE, Américo. O fio da História: Leonel Brizola e a renovação da tradição trabalhista no Brasil contemporâneo (1980-1990). In: FREIRE, Américo e FERREIRA, Jorge. A Razão Indignada: Leonel Brizola em dois tempos (1961-1964 e 1979-2004). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

GOMES, Ângela de Castro. Brizola e o trabalhismo. In: FREIRE, Américo e FERREIRA, Jorge. A Razão Indignada: Leonel Brizola em dois tempos (1961-1964 e 1979-2004). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

PERNASETTI, Cecilia. Acciones de memoria y memoria colectiva. Reflexiones sobre memoria y acción política. In:  PEZA, María del Carmen de la (org.). Memoria(s) y política: experiencia, poéticas y construcciones de nación. Buenos Aires: Prometeo Libros, 2009.

SENTO-SÉ, João Trajano. Prefácio. In: FREIRE, Américo e FERREIRA, Jorge. A Razão Indignada: Leonel Brizola em dois tempos (1961-1964 e 1979-2004). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

SODRÉ, Nelson Werneck. A Farsa do Neoliberalismo. 5ª. Edição. Rio de Janeiro: Graphia, 1998.


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